FONTE: http://www.fca.unesp.br/#!/noticia/901/iii-eia-reune-mais-de-2-mil-participantes/
Mais de duas mil pessoas, entre pesquisadores, estudantes e agricultores participaram do III Encontro Internacional de Agroecologia realizado em Botucatu, de 31 de julho a 30 de agosto. O tema desta edição foi “Redes para a transição agroecológica na América Latina”.
O evento, realizado pela Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp, Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais (Fepaf) e Instituto Giramundo Mutuando, contou com alguns dos maiores nomes da área, como a ativista indiana Vandana Shiva; Miguel Altieri, pesquisador da Universidade de Berkeley/Califórnia e coordenador da Sociedade Científica Latinoamericana de Agroecologia; Eduardo Sevilla Guzmán, catedrático do Instituto de Sociologia e Estudos Campesinos da Universidade de Córdoba; Victor Manuel Toledo, pesquisador reconhecido no debate mundial sobre agrobiodiversidade e conhecimento popular.
A extensa programação teve palestras, debates, mais de quarenta oficinas, apresentações artísticas e a Feira de Saberes e Sabores com divulgação de políticas públicas de apoio e incentivo à agricultura familiar, venda de alimentos provenientes da agricultura familiar e orgânica, distribuição de mudas e praça de alimentação. Cerca de 320 trabalhos foram apresentados na forma de pôster.
“A agroecologia é um campo do conhecimento que oferece uma estratégia metodológica para sairmos de um paradigma altamente poluente e excludente do ponto de vista social, para um outro que leva a um desenvolvimento realmente sustentável”, explica a professora Maristela Simões do Carmo, do Departamento de Economia, Sociologia e Tecnologia da FCA. “Esse desenvolvimento é multidimensional, ou seja, não é apenas o aspecto econômico que importa, mas também o social, o cultural, o ético e o político. O evento foi um sucesso, pois conseguiu abarcar discussões sobre todas essas questões”.
Vários docentes do Departamento de Economia, Sociologia e Tecnologia e do Departamento de Horticultura da FCA participaram da organização e integraram mesas redondas. Muitos alunos trabalharam voluntariamente durante o evento. A Faculdade ofereceu ainda oficinas sobre Agrofloresta, Cogumelos Comestíveis, Cultivo Orgânico de Plantas Medicinais, Homeo patia na Agricultura, Manejo Ecológico Integrado de Pragas, Irrigação de Baixo Custo, Pagamento por Serviços Ambientais. “É um tema novo, não são todas as faculdades de ciências agrárias que estão abertas para essa discussão”, analisa a professora Maristela. “Acho que a FCA está se mostrando aberta ao conhecimento ao acolher esse tema, que está construção e precisa integrar a sociedade civil a esse processo”.
Abertura e homenagem
A solenidade de abertura do III Encontro Internacional de Agroecologia aconteceu no Ginásio do Colégio Santa Marcelina e foi presidida pela professora Maristela. Participaram da mesa de abertura do evento: professor Carlos Frederico Wilcken, vice-diretor da FCA; professora Renata Cristina Batista Fonseca, diretora da Fepaf; professor Antonio Luis Caldas Junior, vice-prefeito de Botucatu; Paulo Peterson, da Articulação Nacional em Agroecologia (ANA); o professor Miguel Altieri; Maria Noel Salgado, do Movimento Agroecológico Latinoamericano; Pedro Guzmán, da Coalicion de los Pueblos por la Soberanía Alimentaria e João Pedro Stédile, representante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
O representante do Instituto Giramundo, Rodrigo Machado Moreira, citou o crescimento do evento em relação às edições anteriores e falou sobre a importância da escolha do tema central das atividades. “Não existem soluções simples para problemas complexos, por isso a escolha do tema redes para a transição agroecológica que, cada vez mais, se revela como uma estratégia de múltiplas dimensões. O que nos anima é que a sociedade reage a todas as formas de opressão. E dessa reação surgem as redes de ação social produtiva. Dessa reação brota a esperança de que podemos mudar a situação em que vivemos”.
No momento de maior emoção da solenidade, o organização do III EIA homenageou a professora Ana Primavesi, considerada uma das pioneiras da agroecologia no país. Aos 93 anos, a agrônoma austríaca que adotou o Brasil como seu lar em 1949, compareceu ao evento e foi aplaudida em pé pelo público que lotava o Ginásio. Responsável pela formação de pelo menos três gerações de profissionais das ciências agrárias, a professora sempre difundiu o princípio básico de adequar a produção agrícola ao respeito a cada agroecossistema.
No primeiro dia do evento foram realizadas algumas das palestras mais concorridas do III EIA. O economista João Pedro Stédile, representante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) falou sobre o ‘Campesinato Agroecológico e os Desafios e Possibilidades da Via Campesina’. Crítico ferrenho do agronegócio, Stédile afirmou que esse modelo não produz alimentos e sim mercadorias. “Sua característica é impor o monocultivo como a condição de buscar a rentabilidade econômica máxima. O agronegócio não convive com a agricultura diversificada”. Para o ele, a adoção de sementes transgênicas padronizadas tem apenas o objetivo de vender um pacote tecnológico que torna os produtores dependentes. “Ela é apenas a forma jurídica de criar a propriedade privada das sementes”.
Segundo o palestrante, a agricultura foi tomada por uma nova etapa da aliança entre o grande proprietário rural, os bancos, as empresas transnacionais que controlam toda a cadeia de insumos e o mercado mundial agrícola. Para ele, o novo ator no processo é a mídia. “Os empresários da mídia burguesa cumprem o papel de convencer a sociedade de que o modelo do agronegócio é o único possível. Nunca o povo brasileiro financiou tanto os negócios agrícolas e, no entanto, para o senso comum, é como se o agronegócio salvasse os brasileiros”.
Para o representante do MST, o modelo do agronegócio carrega muitas contradições, como a destruição da biodiversidade pelo uso intenso de agrotóxicos, a dependência de insumos agroquímicos importados, o risco à soberania em razão do domínio das empresas transnacionais, a concentração de terra e produção. “No Brasil, 85% das terras agricultáveis se dedicam a soja, milho, cana e pasto. A sociedade brasileira está reduzida e três produtos e por isso estamos importando batata, leite e feijão, por exemplo. E há ainda a contradição fundamental do modelo, que é propor uma agricultura feita sem agricultores. Queremos reorganizar o território da produção agrícola sobre outros pilares, com a soberania dos agricultores, produzindo alimentos para todos, com técnicas de plantio que estejam em equilíbrio com a natureza”.
Por fim, Stédile encerrou sua fala afirmando que o agronegócio é incompatível com a agroecologia e que os dois modelos não podem coexistir. “A questão não é o tamanho das propriedades. Numa sociedade pode-se conviver vários tamanhos diferentes de unidades de produção. A questão é que são duas propostas muito diferentes de uso da natureza: uma visa gerar lucro e a outra, alimentos e vida. As duas são incompatíveis”.
A ativista indiana Vandana Shiva começou sua palestra contando como deixou de lado sua formação como física e começou a atuar como líder ambiental. Desde 1983, ela dedica-se às causas ecológicas e à agroecologia. Ela reafirmou sua defesa da agricultura familiar. “De acordo com a ONU, 70% dos alimentos são produzidos pela agricultura familiar. É uma burrice expulsar as pessoas do campo para produção de combustíveis e mercadorias agrícolas que não servem para alimentar a população”.
Vandana também reafirmou que a grande mídia é uma aliada importante do modelo do agronegócio. “A maioria dos problemas ambientais do mundo, como o fim da biodiversidade e os solos degradados ou desertificados, são causados pelo uso de um modelo equivocado de agricultura e isso não aparece na mídia. O agronegócio protege seus mitos”.
Sobre as sementes transgênicas, ela afirmou “Querem transformar sementes em produtos, quando tudo sempre esteve à disposição dos agricultores. Isso é biopirataria”, explica. “A única razão para isso é permitir que as empresas coletem royalties. Se não conservarmos nossas sementes e pudermos usá-las não teremos alimentos, porque o agronegócio só produz commodities. Comida de verdade deve ter qualidade, deve nutrir, ter sabor e deve permitir que o sistema alimentar se propague”.
Para a ativista, preservar as sementes é um dever ecológico, ético e social de todos. “Deveria ser obrigação dos governos cuidar de sua biodiversidade. Temos que colocar toda nossa energia para ficarmos livres desse controle criminoso do sistema alimentar”.
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